Os Últimos Lírios No Estojo De Seda

Esse último fim de semana, estive a ler o livro: Os Últimos Lírios No Estojo De Seda de Marina Colasanti.
Esse livro nada mais é do que uma coleção de crônicas, esse gênero literário tão importante em nosso país pelo que tem de democrático me chama muita atenção.
Então, para compartilhar um pouco do que apreciei esses dias, vou transcrever aqui uma das crônicas, espero que vocês gostem tanto quanto eu…

A náufraga
Um bom náufrago é bilheteria certa. Todo mundo quer ver como se sobrevive numa ilha deserta. Todo mundo se pergunta de sobreviveria em idênticas condições. Todo mundo quer sempre, aprender a sobreviver. Sobreviver é nossa tarefa primeira, já que somos todos náufragos.
Mas tendo devidamente assistido ao filme de Tom H anks, ouso dizer que as mulheres não naufragam como os homens.


Mulher nenhuma, por exemplo, entraria naquela caverna úmida à noite, em plena escuridão. Não é uma questão de medo, é uma questão de prudência. Ele tinha uma lanterninha, é verdade, mas o que pode uma lanterninha contra escorpiões, aranhas, morcegos e outros habitantes da rocha? Uma mulher teria explorado a caverna de dia, ou teria apanhado chuva por uma noite. Tendo entrado, porém, mulher nenhuma esbanjaria luz da única lanterna, com sua única pilha, só para consolar-se olhando o retratinho do namorado. O amor é lindo, mas a economia doméstica tem suas regras.
Penso em mim mesma náufraga. Em primeiro lugar, nada de morar na gruta cinzenta e inóspita. Teria construido uma casa. Havia ali material de sobra, troncos variados e folhas de palmeira que entrelaçadas dariam paredes e teto da melhor qualidade. Minha casa poderia ter um cômodo só, mas com janela olhando para o mar. Em caso de grave tempestade poderia até procurar refúgio na gruta, mas nos dias tranquilos e nas noites amenas, ter uma casa me aqueceria a alma. É possível que com o tempo, e com as fibras disponíveis conseguisse até fazer algo parecido com uma rede, na qual me deitaria para pensar na vida e, quando fosse inevitável, chorar.


O cabelo crescido eu trançaria para não embaraçar. Se quizesse poderia cortá-lo curto, com fio de pedra, mas não quereria. O cabelo longo, a lavar com água de chuva e pentear com pente feito de espinhos, me faria companhia. E seu comprimento me diria do passar do tempo.

Ao contrário de Tom Hanks, não comeria com as mãos. Com a lâmina daqueles patins, cortaria para mim palitos japoneses. Uma lasca de pedra seria meu prato, e com os cocos todos que os coqueiros não paravam de despejar faria cumbucas variadas. Havendo lama e fogo, modelaria e tentaria assar panelas e depois pratos. Falharia nas primeiras vezes, mas teria todo o tempo para tentar de novo.
Nem limitaria meu cardápio a siris assados na brasa ou peixes crus. A água do mar, devidamente isolada, secaria deixando-me o sal indispensável a qualquer comidinha esperta. O leite de coco seria elementar de conseguir, e eis aí,  meio pálido talvez pela falta de tomates, uma moqueca, um ensopadinho de siri. Isso para não falar no quase bacalhau que obteria secando o peixe no sal e dessalgando-o em seguida. Enfim, dava para aliviar o tédio alimentar.
Ilha madrasta a do filme. Nenhuma ave, nenhum bichinho que pudesse adotar.

Naquelas circunstâncias, uma bola que já vem com nome, Wilson, pode mesmo parecer companhia para um homem, acostumado desde pequeno a gostar de bola. Mas uma mulher teria feito de palhas e folhas, uma boneca, teria gestado uma criatura com braços e pernas, sua semelhante. Talvez lhe fizesse roupinhas. E com ela dialogaria.
Numa ilha deserta, sobreviver é não apenas manter a vida, mas conservar a própria identidade humana. Para um homem, vencer a natureza é afirmar-se como homem. E Tom vence a natureza duplamente, continuando vivo e escapando da ilha. Uma mulher vence a natureza d e outro modo, organizando-a. Uma mulher não teria talvez a força física para escapar da ilha. Mas quando alguém finalmente lá chegasse, já não encontraria uma ilha selvagem.

Bem, é isso, me identifiquei tanto com esse texto que resolvi compartilhar, sei que um “pouco” comprido se comparado a textos que já postei aqui, mas definitivamente acho que vale muito a pena de se ler, nem que para isso se gaste cinco minutos a mais… esse texto me dá idéia da própria natureza humana, mostra a capacidade que o ser humano tem de inventar, criar recusos quando tudo parece tão ruim e tão perdido, não é mesmo? Mostra a diferença do gênero. Espero que tenham gostado!

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About Flavita / Misaki

Meu nome é Flavia, mas tenho vários apelidos, dentre eles sou conhecida por Flavita, Hadassa, atualmente Misaki. Tenho 38 anos, sou carioca e um dos meus hobbies é a literatura...Adoro ler!!! Capricorniana, vivo me cobrando... Amo a Anne, minha filhota, por ela faço muitos sacrificios e não me arrependo... Sou geniosa às vezes, pode -se dizer que sou meio díficil de lidar, embora conheça pessoas piores... E como disse a queridíssa Clarice, faço das palavras dela, as minhas: "E se me achar esquisita, respeite também. até eu fui obrigada a me respeitar." Outra ocupação: Se vc estiver procurando uma revendodara Radha (Sidney de Oliveira) e não encontrou.... Eu sou uma, marque suas amigas na minha página.... http://rahda.com.br/catalogo/#cover]

2 responses to “Os Últimos Lírios No Estojo De Seda”

  1. Leninha says :

    ótimo texto, super verdadeiro, eu tbm seria uma naufraga bem moderna e dispojada, kkkkk.
    Assisti o filme O Naufrago e chorei em diversas partes, mas com esse texto só consegui rir muito.
    Adorei!

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  2. Ivan Soares says :

    Flavita…..

    Este foi o melhor texto que já postou.

    Fantástico…. visão ampla… adorei

    Bjs

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